Sobre a segunda impressão: das pessoas, do Islã e a que fica

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Existe um ditado cretino que diz que a primeira impressão é a que fica, mas seria pretensão considerar que um primeiro julgamento de tudo que me deparo seja o fim e a verdade. Nem pra chamar a atenção isso serve, porque vivo sendo chamado a atenção pra coisas que não prestam pra nada. É só quando convivo que conheço uma pessoa; provando várias vezes é que aprecio uma comida diferente; e com paciência para observar é que percebo cada vez mais. Vivo de segundas e tantas outras impressões.

Batendo queixo aos 3º C do meio da madrugada, nossos amigos paquistaneses fazem questão de nos carregar ao terraço de suas casas pra tomar chai, fumar ou simplesmente conversar fiado. O frio, a vista de Lahore embaçada pela névoa e a conversa boa tornam o momento sempre agradável. A ausência de iluminação pública nos bairros compõe uma paisagem singular; tudo que se pode ver são sombras e silhuetas criadas pelas luzes nos cômodos ou pelos raros refletores nos terraços e varandas das casas baixas e poucos prédios.

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O torpor fica maior quando, de repente, ecoa um barulho repentino vindo da mesquita mais próxima: é a voz do muezzin, o homem encarregado da adhan, canção para lembrar a todos que é hora de uma das cinco orações do dia. Achei muito engraçado quando ouvi de Johanna, uma pesquisadora alemã que conhecemos aqui, que a tal canção dava arrepios nela. Já tinha reparado naquele som muito similar a um berrante algumas vezes durante o dia, mas, realmente, é no mínimo arrepiante ser surpreendido às 4 da manhã por uma canção altíssima recitada em árabe ecoando vibrantemente pela vizinhança.

Passado o estranhamento, sempre fica aquele ar de graça e uma curiosidade boba: quantas personalidades distintas, de jovens e velhos, devem se construir vivendo a vida em noites de ruas vazias, escuras, silenciosas – sem bares, sem boates, sem clubes; sempre sob o jugo do islã te obrigando a rezar cinco vezes ao dia e te enchendo de restrições sobre vários aspectos da vida. Considerações tão frágeis…

Em verdade, se não há movimento pelas ruas durante a noite, há muita vida dentro das casas por onde passei: espaçosas, quentes, cheirando a tabaco e comida apimentada, no meio de famílias grandes e unidas, cheias de amigos e agregados. Tenho conhecido nativos de todas as idades sempre sorridentes, hospitaleiros, divertidos, cheios de desejos e piadas prontas para contar. Se interessam em saber sobre mim, minha religião, minha história, e aí descobrimos que compartilhamos gostos, musicas, sonhos e opiniões. Conversamos sobre a faculdade, a vida amorosa, uma comida gostosa ou uma lembrança engraçada e já rimos muito enquanto aprendo e repito putaria em urdu. Se um tiozinho brasileiro olhasse os jovens daqui, veria o mesmo do Brasil: “ôs-minino-bobo”, “viciados em celular e internet” e “que-não-querem-nada-com-a-vida”. Somos mais parecidos do que eu imaginava.

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E até no que eu julgava a maior diferença somos semelhantes: o mesmo que acontece entre os cristãos se passa com muçulmanos. Conversando, ouvindo e observando percebi que há aquelas famílias mais rígidas e religiosas, enquanto há outras que são mais liberais; existe quem se diz menos religioso e até mesmo os que se autodenominam “não-praticantes”; também há os questionadores e os proselitistas; e aqueles que definitivamente não se importam para qual deus você ora. São pessoas de personalidades gigantescas cheias de história, de trabalho, de saudade dos que já se foram e esperançosas com o futuro; são pessoas de todos os sexos e idades com a liberdade (ou lutando para tê-la) para escolher como interpretam o Alcorão e como se relacionam com Allah. Todas querendo se sentir bem. Religião não é pra isso?

“O islã não é sobre restrições” – Shaheer dizia à Johanna, – “mas principalmente sobre diretrizes para viver bem consigo mesmo e com deus”. Eles comentavam sobre costumes prescritos nos livros sagrados (como, por exemplo, lavar a cabeça massageando apenas no sentido da frente da cabeça pra trás; beber água devagar, ou colher e comer o alimento que caiu no chão há pouco) que atualmente foram cientificamente comprovadas como atitudes benéficas à saúde e eficazes até na prevenção do câncer. Também discutiam sobre como a mídia desastrosamente denigre o islã, relacionando-o a terroristas de alguma seita fundamentalista (que no fim das contas tem motivos muito mais políticos do que religiosos); ou reduzindo-o à uma religião que frustra e subjuga seus seguidores. Se há alguma verdade nisso, é definitivo que não tenho propriedade no assunto e não é meu objetivo discuti-lo e convencer alguém do contrário.

O que tenho cada dia que passo aqui são histórias.

Em uma dessas madrugadas, Shaheer contava que o Alcorão tem várias predições sobre a atualidade, inclusive uma metáfora que previa o atentado às Torres Gêmeas. Então perguntei na lata: ao invés de predições, não seriam ordens, sugestões? “Jamais”, me respondeu bem humorado, “afinal, de todas as páginas do Alcorão pode ser retirada uma mensagem: a de paz, igualdade e amor.”

Mais que uma interpretação bonita, ele e tantos outros a escolheram como sua verdade e buscam viver assim cada vez mais.

Foi a impressão que ficou.

“A virtude não consiste só em que orienteis vossos rostos até o levante ou o poente. A verdadeira virtude é a de quem crê em Deus, no Dia do Juízo Final, nos Anjos, no Livro e nos Profetas; de quem distribui sua riqueza por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados, viajantes, mendigos e em resgate de cativos. Aqueles que perseveram na oração, praticam regularmente a caridade, cumprem os compromissos contraídos, são pacientes na miséria e na adversidade ou durante o combate; tais são os verdadeiros fiéis e são os que temem a Deus.” (Alcorão 2:177)

Henrique Bettin

Ele passou uma temporada no Paquistão e está de volta para dividir tudinho com a gente em uma série especial de artigos.