Notas sobre uma vila do Paquistão

SAM_3626 (1024x685)

Acordamos cedo numa sexta feira pra pegar a estrada pra Sarghoda, uma cidade ao norte de Lahore, para ir até uma vila onde passaríamos o final de semana. O sol e o céu limpo deixaram a paisagem diferente de tudo que havíamos visto até então em dias sempre cheios de névoa. Pudemos descobrir planícies gigantescas com plantações de cana de açúcar, laranja, arroz e flores dividindo espaço com casas humildes e currais com vacas e carneiros. No meio de campos verdes distantes pessoas vestidas com panos coloridos esvoaçantes contrastavam a paisagem e me resgatavam do engano de me sentir no meio do nada. Havia pessoas, seres humanos, vidas sendo vividas naqueles lugares a princípio tão inóspitos e tão distantes de minha realidade.

Antes de chegar a vila passamos pela cidade onde pude perceber a diferença entre Lahore, uma metrópole globalizada onde os costumes orientais e ocidentais disputam espaço; e Sarghoda, uma cidade de interior do Paquistão, onde a cultura paquistanesa persiste onde quer que o olhar alcance. Multidões dividem as ruas com carros, rickshaws, motos, caminhões e carroças puxadas por burros; todas as pessoas usam roupas tradicionais, principalmente as mulheres e meninas, que, sem exceção, usam lenços cobrindo os cabelos e a face; e por fim, nenhuma placa em inglês, tudo em urdu. No curto espaço de tempo que ficamos parados, quis sair do carro, mas os amigos paquistaneses preferiram que não o fizesse. O movimento intenso das ruas assustava até os nativos.

096 (1024x663)

Após mais algumas horas de viagem por estreitas estradas de chão no meio de plantações e à beira de represas, chegamos à vila de Sheik da Loak, um agrupamento de casas, currais e plantações onde várias famílias se estabeleceram há mais de três gerações. Uma delas é a família de Hassan Rasikh, um dos paquistaneses que conheci e que nos conduziu à visita. Fomos recebidos por dois tios, proprietários das terras, e alguns empregados e vizinhos – todos homens. Se reuniam num terreiro em frente à casa, em volta de mesas de centro sentados no que eles chamam de charpayi, uma espécie de cama artesanal, estruturada em madeira e com o leito feito de cipó esticado e muito bem amarrado. Uma peça tradicional que vi por várias casas que visitei no Paquistão.

Trocando olhares com aquelas figuras sérias e carrancudas num exame mútuo e discreto, tivemos um diálogo tímido com os senhores e seus empregados, uns arranhando no inglês e outros contando com a tradução dos mais instruídos. Algo muito interessante que reparei foi na expressão de carinho e gratidão entre empregados e patrões ao cumprimentarem-se ou enquanto se referiam uns aos outros em nossas conversas. E todos foram extremamente atenciosos e preocupados com nosso bem estar.

Ao mesmo tempo, admirava tudo à minha volta. A temperatura amena e o dia ensolarado – deixando resquícios de calor – me reportaram ao Brasil. Olhei com ternura todas aquelas casas de aparência humilde imaginando quantas vidas e histórias estavam impregnadas naquelas paredes; vi vários empregados perambulando e fiquei impressionado com os sistemas de irrigação espalhados por toda a propriedade, grandes sulcos em volta dos campos de cultivo por onde passava a água canalizada de rios e represas próximas. Não demorou muito para que nos surpreendêssemos com a adham vinda do minarete da mesquita da vila. Era uma vida pacata, simples, e como parecia feliz para todos eles.

SAM_3511 (1024x685)

Almoço na mesa, tivemos comida tradicionalíssima: chicken karahi, que a melhor descrição que tenho é a semelhança com a galinha caipira brasileira, não fosse a pimenta pesada e os temperos diversos. Para acompanhar, pão (muito semelhante à uma pizza sem recheio) usado como talher (corta-se pequenos pedaços como uma pequena concha para separar o frango) e iogurte de menta como molho para amenizar a pimenta.

Mesmo na hora da refeição só havia homens naquela reunião, e foi assim o tempo todo que estive na vila. Na casa de família que entrei, só passei pela sala e pelo quarto; foi num único e rápido exame da cozinha que me deparei com várias mulheres cuidando de filhos pequenos, preparando comida e lavando louças e roupas. Por nenhum momento elas se aproximaram ou tiveram qualquer contato conosco; os maridos e os filhos mais velhos buscavam tudo que precisávamos da cozinha. Naquele momento preferi não questionar por entender que para todos, homens e mulheres, aquela era uma atitude natural e comum.

SAM_3523 (1024x685)

No resto do tempo, tive a oportunidade de conhecer mais da propriedade passeando entre plantações. Assisti nativos caçando pássaros com armas gigantes – adquiridas a princípio para garantir a segurança da vila; e até experimentei dar tiros para o alto e senti a pressão da double gun em meu ombro. Vi alguns trabalhadores voltando do dia de serviço nas lavouras de cana em bicicletas e motos; e no meio do caminho alguns até pararam para nos conhecer.

IMG_9617 (1024x683)

Num desses encontros com nativos, conheci Irfan, ou melhor, Muhammad Irfan, um garoto moreno, magro, baixo, 16 anos, sobrancelhas grossas e sorriso largo; chegou cheio de presença e não escondeu que queria praticar seu inglês a qualquer custo, ainda que lutando claramente contra a timidez. Por todo tempo ele esteve por perto perguntando e pedindo com todas as letras que eu fizesse perguntas; foi então que soube de sua família, de sua escola, de seu trabalho, seu relacionamento com deus e até sobre seu sonho de ser piloto de avião na Arábia Saudita. Por quê? “Nenhum motivo especial” e caiu na gargalhada.

Foi junto com ele que no dia seguinte conheci mais três pequenos Muhammads. Entre a timidez e a barreira da diferença das línguas, nos aproximamos como pudemos. Quando perguntei o nome de um deles, a resposta veio num estalo entre punhos cerrados encostados na face. Muhammad Farhan. E noutro estalo inesperado ouvi entre as mãos agora abertas gesticulando levemente que “Farhan significa alegre em árabe!” e um sorriso calmo se abriu. Não haveria explicação melhor que aquela para entender o orgulho de ter o nome do profeta em seu próprio nome, acompanhado de uma característica tão adorável.

IMG_5865 (1024x768)
Henrique ao centro, cercado por Muhammad Farhan, Muhammad Ikram, Muhammad Mustafa e Muhammad Irfan

Muhammad Farhan, Muhammad Ikram, Muhammad Mustafa e Muhammad Irfan me cercavam radiantes; tive a impressão de que era a primeira vez que eles conversavam com um estrangeiro. Mas mal eles sabiam que era eu o mais encantado, o mais grato e o mais alegre naquele momento; eu fazia uma descoberta estúpida, mas que me exercito pra que sempre lembre dela. Existe alegria numa vida simples e humilde, longe de informação e tecnologia sofisticada, longe de tudo que eu conheço. Seja em jogos de cricket em campos improvisados, rodas de conversa e momentos de oração; sonhando em ser piloto, conversando com estrangeiros ou trabalhando arduamente. A felicidade está presente pra quem souber encontrá-la e quiser senti-la.

Na volta pra Lahore, pensei no quanto me pareceu hostil no começo me deparar com o desconhecido; hoje sei que era só um sintoma de um espírito incomodado com a distância de seus lugares-comuns. A verdade é que eu estava indo de encontro com momentos únicos e maravilhosos. Eu me sentia energizado, envolto em sentimentos bons… Não poderia ser diferente para quem se deparou com um profeta feliz. Foi como receber uma benção pra seguir meu caminho.

Henrique Bettin

Ele passou uma temporada no Paquistão e está de volta para dividir tudinho com a gente em uma série especial de artigos.

Um comentário sobre “Notas sobre uma vila do Paquistão

  1. Todos os textos do Henrique ajudam a desconstruir uma imagem ocidentalizada do Paquistão que muitas vezes nos impede de conhecer o lugar e ver como ele realmente é: cheio de pessoas amistosas que, como nós, estão ávidas por dividir um pouco do seu mundo. Parabéns, Henrique. E obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *