Na África de mochila

Joburg Mandela Brigde
Nelson Mandela Bridge, Johannesburgo

Quase sem querer fui parar na África do Sul. Com grana na mão depois de finalizar um grande projeto de arquitetura, fui conversar com uma amiga sobre carros. Dizem que se conselho fosse bom, ninguém dava, mas esse mudou a minha vida. Levei um sermão por pensar em trocar de carro com 24 anos e o conselho foi “Tá maluca? Vai viajar garota!”. E comecei a pensar… Porque não?! O ser humano precisa ter vivência. A gente tem que experimentar, conhecer o mundo, quebrar mitos e criar seus próprios parâmetros. A África sempre fez meus olhos brilharem. Aquele lugar me parecia fantástico, colorido e apaixonante. Comecei então a preparar meu roteiro, cronograma físico-financeiro e tudo mais. Oi? Chato, né?! Mas era a falsa sensação de segurança e organização de que eu tinha algum controle sobre a viagem. Sem chance de entrar num pacotinho turístico com pessoas mais perdidas do que eu. Sem namorado e as amigas não podiam me acompanhar, decidi ir sozinha e de mochila.

Desembarquei em Johannesburgo em dezembro de 2009, perdidinha. Visualize a cena. Cai num aeroporto lotado, grande e complicado, cheio de pessoas com plaquinhas chamando por nomes estranhos, sem nem saber como pegar um taxi. Super preparada, só que não! Me arrependi de não ter filmado a minha cara de espanto. Teria rido muito, depois. Como eu estava ali só de passagem, não me preocupei em ficar no Centro da cidade. Bom porque eu não precisava de nada além de uma cama e chuveiro, e ruim porque assim que cheguei ao hostel descobri que a cidade era muito grande e que não tinha restaurante por perto. E detalhe! Mulher não pode andar sozinha pela rua. Ai que ótimo! Branca e loira então… Nem pensar! Soube disso assim que comecei a conversar com um rapaz de Moçambique, gente boa à beça, e que gentilmente me convidou para ir ao Centro com ele e mais um americano pra comprar algo pra comer. Menos mal. Pena que andar por lá tenha sido tão chocante, há quem diga que a cidade é bem bacana. Eu percebi que o Apartheid deixou fortes resquícios por lá, começando pelo índice de estupro que é altíssimo. Acho que é uma forma dos negros mostrarem força e poder ao governo. Eu senti isso tudo muito presente. Está realmente cravado na alma daquele povo sofrido. Infelizmente, não foi uma experiência tão agradável circular a pé pela cidade. Fui muito observada sempre e os olhares não foram muito amigáveis, mesmo com o corpo escondido pela roupa de frio. Mas não julgo. Queria ter o poder de tirar tantas marcas pesadas da vida daquelas pessoas… Mas enfim… A África é assim, às vezes cruel, outras tantas de uma beleza fascinante.

Já tinha agendado pela internet, um safari de 3 dias no Kruger Park com a empresa Livingstone Trails, muito eficiente por sinal, e o combinado é que me buscariam no hostel às 5 horas da matina. E foram pontualíssimos! Madruguei pronta pro ataque. E olhem o que eu descobri pelo caminho! O Blyde River Canyon!!

Blyde River Canyon
Blyde River Canyon

Eu tava muito focada no safari e nem pensei no que poderia ter no trajeto até lá. E esse canyon foi realmente uma surpresa maravilhosa. Não ter criado expectativa foi sem querer, fundamental. Ele é um dos maiores do mundo, com um abismo de mais de 33km de extensão e continua intocado pelo homem. Tem algumas caminhadas guiadas, mas eu não pude ir porque estava com o tempo contado. Acho que valeria incluir essa trilha no roteiro. Fica a dica!

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A estrada que leva Johannesburgo ao Kruger Park tem um visual lindo, de fora a fora. Vale a pena ficar acordado. Quando tudo é novidade, o tempo voa. Oito horas depois lá estava eu, chegando no Lodge. Pra minha sorte, que tenho mania de querer tudo roots, escolhi uma cabana privada. Poderia ter escolhido acampar sem saber do risco de receber visita de babuínos ou outros bichos que não pedem licença pra entrar. Já pensou? E sim! Eles são bem pra frente e tomam conta do local. Só pra vocês entenderem, esses lodges ficam dentro da reserva florestal, no meio do parque, e os animais ficam soltos circulando.

Área de lazer do Lodge
Área de lazer do Lodge
Minha cabana privada
Minha cabana privada

Logo na primeira noite, o grupo que se formou para o safari se reuniu no restaurante pra jantar e fomos presenteados com a apresentação de uma dança típica com criancinhas muito fofas da região. Impossível não entrar no clima da selva e os besouros te ajudam a entrar mais rápido ainda! Chega ser engraçado, mas tem besouro pra todos os lados. Nada preocupante, relaxa, estar numa floresta é isso. E o safari promete!!

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Na manhã seguinte saímos às 4hs da manhã, entramos num jipe aberto e partimos pra selva. Andar naquele jipe aberto já é uma aventura por si só, se pensar na possibilidade de um leão subir no teto então… Mas não é tão simples assim. Existem guardas armados que rondam pela reserva pra proteger os turistas e por favor, nada de alimentar os bichinhos, ein!! Ver aqueles animais soltos, caçando, correndo, descansando… é realmente uma experiência única. Depois de algumas horas no jipe, paramos pra tomar café da manhã. Hummm… Delícia!! Bacon, eggs and cheese!!  Bem saudável, rs.

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Café da manhã

A savana é incrível e cheia de surpresas. Ficar 3 dias rodando e observando hienas, elefantes, zebras, leões, guepardos, hipopótamos e tantos outros é um tempo razoavelmente bom. Achei suficiente e consegui me satisfazer. Depois desse tempo, começa a ficar repetitivo. Mas pra quem quer uma imersão na savana, tem programas maiores.

Guarda armada
Guarda armada
Leoa
Leoa
Cães selvagens
Cães selvagens

Na segunda noite, fizemos um safari noturno, que foi bem emocionante. É possível ver os animais se preparando pra caçar, outros em bando se protegendo… Achei sensacional sair à noite, pois o comportamento deles muda e a forma como você os observa, também.

Rinocerontes no safari noturno
Rinocerontes no safari noturno

Há estações de apoio aos turistas distribuídas ao longo do parque, com restaurantes, lojinhas e informações extras para os turistas. As refeições já estavam incluídas no  meu pacote, o que foi uma ótima pedida. É um momento que o grupo troca ideias e se conhece um pouco melhor. Fora que, parar no meio da savana para um pequeno lanchinho é uma experiência a parte.

Almoço numa Estação de apoio do parque
Almoço em uma das Estações de apoio do parque

O safari foi inesquecível. É sim, como dizem por aí, um dos itens que deve constar na sua lista de “1000 coisas para fazer antes de morrer”. Ah! Uma máquina fotográfica boa é indispensável, mas não precisa ser aquela teleobjetiva gigante. Dá pra tirar fotos maravilhosas com uma câmera de lente fixa. E óbvio, não esqueça o filtro solar!! Antes de ir pra África, consultei um médico que me recomendou tomar Complexo B, para me proteger de picadas de insetos. Acho que funcionou porque não tive nenhum problema. Nem precisei de repelente. Há também vacinas pra evitar a famosa dor de barriga do viajante por ingestão de alimentos e a febre amarela que é obrigatória. A estrutura do Kruger Park é muito organizada e alto nível, dificilmente você terá problema desse tipo por lá. E me despeço aqui com um pôr-do-sol na savana.

sunset at kruger 2

 

 

5 comentários sobre “Na África de mochila

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