Pé na estrada, Costa da África do Sul

sawabona

Sawabona é um cumprimento lindo que aprendi na África do Sul que quer dizer “Eu te respeito, te valorizo. Você é importante pra mim.”, e em resposta diz-se Shikoba “Então, eu existo pra você”. Somos todos um. No final das contas, a vida é isso e é nisso que eu acredito.

País de tanta cultura e que tanto me encantou… Antes de embarcar, tive medo de ser picada pelo mosquito que transmite a malária. Pura inocência. Fui picada por um outro mosquito que nem sabia que existia, que me transmitiu o “vício do viajante”. Me tornei um ser viciado em aventuras a ponto de não conseguir imaginar a minha vida por muito tempo parada num mesmo lugar. Uma vez li um trecho de uma mensagem que me marcou muito e que ilustra essa paixão: “vá, minha garota, vá sem medo. Põe na mochila um pouco de calor e amor no coração. Suba no caminhão se puder e não ouça as pessoas que dão importância demais à segurança. O caminho é longo e o mundo está cheio de aventuras.” E assim foi quando parti pela estrada da costa sul africana em busca do inusitado.

Saímos de Cape Town de carro, eu, fera já na mão inglesa, o brasileiro e o francês, com destino à Jeffreys Bay. A primeira recomendação foi de não pegar estrada a noite. É bem comum cruzar com animais na pista e pode ser desde um babuíno à um elefante. À noite eles ficam invisíveis a não ser que o farol do carro ilumine seus olhos. E foi exatamente assim, só que de dia…

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A primeira parada foi em Stellenbosch, numa vinícula pra degustar vinhos. Não sabia nessa época, mas a África do Sul tem bons vinhos produzidos nessa região. Foi uma ótima oportunidade pra conhecer a cidade e provar essas delícias. Curtimos o dia e seguimos rumo a Franchoek, um vilarejo colonizado pelos franceses, com casas que mais parecem de bonecas.

FRANCHOEK

A alimentação é o que mais sinto falta quando viajo por um longo período. É sempre muito bom provar a culinária local, mas com o tempo começo a sentir falta do básico do dia-a-dia. E na África como não é recomendado comer frutas e verduras in natura, sofri de abstinência, rs. Lá pelas tantas, em Franchoek, não resisti e fui com tudo na saladinha de frutas. Olha a cara de felicidade da criança!

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A primeira noite passamos em Mossel Bay pra descansar e curtir uma praiana. E na praia a cena do biquini pequeno, que pra mim era gigante, se repetiu e até as crianças se cutucavam e comentavam, mas eu já não estava nem aí. Brasileira é diferente mesmo, eles que se acostumem e ponto.

Os ataques de tubarão são famosos na África do Sul. Chega a ser estranho ver no mar um cercadinho de rede limitando a área de mergulho, numa tentativa de proteger os banhistas. Se quiser mergulhar fora da banheira, sem problemas, assuma você os riscos.

mossel bay
Mossel Bay

Eu sou a favor de experimentar sensações novas. Ir ao mesmo lugar várias vezes definitivamente não é comigo e essa jornada me levou a testar todos os meus extremos. Começando pela Cango Cave, uma caverna muito grande em Oudtshoorn (por favor não me peça pra pronunciar esse nome, rs), cheia de stalactites e stalagmites. Eles são comuns em cavernas de calcário que com a passagem da água, vão gerando gotas e formando essas pontas exóticas, vindas de cima ou de baixo. O detalhe é que em média, eles crescem de 6 a 25mm por século. Imagina quantos milhões de anos não tem esses daqui, que são enormes?!

stalactites

Achei a visita demais. Pra quem tem claustrofobia ou outras fobias, tem restrições. Em alguns momentos a caverna se fecha e estreita os caminhos a ponto de termos que engatinhar pra passar. Nem arrisque se você tem pânico de lugares apertados. Eu adorei a experiência!!

cango cave

Não é à toa que todo esse percurso do litoral é conhecido como Rota do Jardim. Todas as cidades são bem cuidadas, cheias de caprichos, a estrada é ótima e em alguns momentos a geografia te manda um beijo e te mostra o quanto essa terra é abençoada.

Montagu Pass (cruzando as Montanhas Outeniqua)
Montagu Pass (cruzando as Montanhas Outeniqua)

Em Knysna rolou um episódio cômico. Uma cidade pequena, mas muito arrumadinha e com uma praia até bem frequentada. Chegando lá, fomos direto pro hostel deixar a mochila pra dar uma volta pelas ruas… Fomos recebidos da maneira mais calorosa possível. Nos apresentamos à dona do hostel que assim que soube que eu era brasileira, me deu as boas vindas com um sorrisão no rosto e um tapa na bunda. Oi? Será que esse é o cumprimento oficial da cidade? rs. Valeu o pôr-do-sol!

Knysna
Knysna

Próxima parada, Plettenberg bay, cidade base pra quem pretende pular de bungy jump da Bloukrans Bridge. As praias em Plettenberg são lindas e lotadas. Depois de curtir um pouco de praia, descobrimos uma trilha numa reserva paradisíaca e partimos pra lá. Foram uns 20 km de trilha, passando por áreas de mata, pedras, montanha, acabando numa praia cheia de leões marinhos.

Plettenberg Bay
Plettenberg Bay

Eu tenho um defeito muito grande. Se me desafiar, eu vou, mesmo com medo. A minha relação com o medo é quase uma luta constante. Os medos do dia-a-dia sempre me rondam… ainda mais morando numa cidade onde o índice de violência é um dos maiores do país. Mas aqui, eu impus um limite a mim mesma. Não tem problema ter medo, ele pode até ajudar a gente em alguns momentos, a única coisa que não permito é que ele me domine. Então eu não tive escolha, tive que pular de uma ponte de 216 metros e superar tudo isso de uma vez só.

A adrenalina começa no momento em que você vê a ponte. O vão central é enorme e o ponto do salto é bem no meio desse vão. E pra chegar lá, você passa sob a ponte de concreto, numa ponte secundária em gradil todo vazado, ou seja, praticamente flutuando. Impossível não entrar no clima de desespero, no meu caso. Me senti indo pra um campo de concentração a caminho da morte, rs.

Bloukrans Brigde
Bloukrans Brigde

Na hora só pensei “ninguém nunca morreu aqui, não serei eu a primeira”. Quando chegou a minha vez, foi tão rápido, que mal mal deu tempo de pensar mais besteiras. Amarraram meus pés, contagem regressiva e pulei, aliás, não pulei por que as minhas pernas tremiam, rs, me soltaram e eu fui. Foram os segundos mais eternos que já vivi. Nada até hoje se comparou a esse infinito. Foi libertador. Depois de saltar, um rapaz desceu de rapel e me resgatou. Me lembro de ter dito à ele “Você é louco de trabalhar pendurado aqui o dia todo” e ele só disse “Louco seria não trabalhar aqui.” E com o tempo eu entendi o que ele quis dizer. Talvez pra ele, insano seja trabalhar o dia todo de frente pra um computador. Enfim, a adrenalina deve ter durado uns dois dias no meu corpo. Foi intenso e inesquecível. Quando subi de volta só conseguia dizer “never again”, mas quer saber, o medo passa e hoje eu faria tudo de novo.

bungy jump

E finalmente Jeffreys Bay, uma pacata cidade, com praia famosa, supertubos e campeonatos de surf.

jeffreys bay 2

jeffreys bay 3

À véspera do réveillon, o Island Vibe, hostel que escolhemos, já tinha tudo preparado pra virada do ano, eu não tinha a menor ideia da fama dessas festinhas e na placa dizia “Festa Pirata. Venha a caráter!”. E não é que as pessoas levaram isso muito a sério? Eu não tinha me preparado pra isso então fui vestida de Juliana, normal e eu que passei a ser a pessoa estranha ali, rs. A galera realmente entrou no clima. Os barmen então, nem se fala… Eles vestiam apenas uma bandana na cabeça, um colete preto e uma cumbuquinha na região pélvica, solta, imprensada entre o corpo e o balcão, pra não expor demais a situação, claro, rs. Imaginem na hora de preparar os drinks e fazer malabarismos… Fiquei chocada! rs. Pudor pra que? A festa foi animadíssima com contagem regressiva e fogos na praia. Foi um ótimo batismo pra fechar essa trip com chave de ouro. Meus conceitos nunca mais foram os mesmos, rs.

reveillon

Não tem como voltar pra casa a mesma pessoa depois de uma viagem como essa. Perdi o medo de viajar sozinha, de pular de bungy jump, aprendi a me virar sozinha, tomei gosto pela liberdade, fiz amizades e ganhei uma bagagem maior do que cabia na minha mochila. A África do Sul se tornou um lugar especial e me abriu a cabeça no sentido de não me permitir ficar numa zona de conforto por muito tempo. A gente tenta se cercar o tempo todo de coisas e sensações falsas de que estamos seguros, mas a verdade é que a única segurança que nós temos é o que nós somos na essência. A todo momento estamos sujeitos a perder bens e pessoas e o mundo é uma selva. Vai sobreviver quem souber melhor se adaptar ao inesperado. E posso dizer que tudo isso foi só o começo pra encontrar o que eu nem sabia que estava procurando, eu mesma.

Shikoba.

Até a próxima! ;)

 

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