Punta Arenas e o Estreito de Magalhães

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Depois dos quase 70km de trekking alucinante em Torres del Paine, segui pra Punta Arenas, a cidade portuária mais ao sul do Chile. Antes da abertura do canal do Panamá, era pelo Estreito de Magalhães que os navios passavam quando queriam cruzar os Oceanos Pacífico e Atlântico. De Punta Arenas parte a maioria dos navios rumo à Antártica. Preciso dizer o quão foi excitante estar ali? Queria me jogar dentro daqueles mega navios e partir praquele continente gélido atrás de mais aventuras, mas não foi dessa vez, rs. Aficionada por história, pensei em toda a importância do Estreito, que tem o nome em homenagem à Fernão de Magalhães, português que numa tentativa de contornar a América, descobriu esse canal. Fora que Charles Darwin e tantos outros caras importantes passaram por ali. Enfim, Punta Arenas guardava ótimas surpresas.

Calhou de estar caminhando pelo centro de Punta Arenas e pedir informação pra uma família e descobri que eu estava conversando com o comandante do navio de expedição brasileira partindo pra Antártica. Era a despedida deles do ano, estávamos entre o Natal e o Ano Novo. Pra frente que sou, quase me ofereci pra descascar batatas no porão e me jogar nessa missão junto. Já pensou? Pena que faltou coragem e cara de pau, rs.

Essa cidade tem um monte de coisinhas legais pra fazer. O centro é até movimentado e a cidade faz parte da zona franca, ou seja, ótima oportunidade pra comprar artigos de frio, equipamentos, etc., coisas que no Brasil são bem caras. Normalmente no centro tem feiras nas praças e vários restaurantes bons. Foi aqui que eu provei a centolla, uma espécie de caranguejo gigante das profundezas do Pacífico. Achei bem gostoso, me lembrou o sabor e a textura da lagosta. Recomendo provar, ainda mais que é um prato bem típico dessa região. Tem sopas, risotos, vinagrete, salada, enfim… várias opções de pratos que levam esse caranguejo exótico. Delícia!!

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Fazendo amizade com os doguinhos da cidade…
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Risoto de centolla e camarão

Nessa altura do campeonato, depois do trekking, meus pés imploraram por descanso e chinelos. A bem da verdade é que eu adoro não ter que me preocupar com roupas em viagens. Não tem maior prazer do que andar relaxada, desencanada com a beleza e despreocupada com a opinião alheia. E daí se ficou brega, descabelada e parecendo maluca? E te confesso que depois que me desprendi disso passei a ser bem mais leve, inclusive levando malas menores ou mochilão quando dá. Ser básica em viagem significa muito e eu aprendi que o que importa é a essência das pessoas. Conheci tantos seres ricos de cultura, pessoas inteligentes e totalmente desapegadas… que passei a admirar isso. Coisa que nem sempre a gente consegue fazer no dia-a-dia da nossa vida. Ainda mais com esse mundo freneticamente consumista e preso à imagem. Não tem nada melhor do que se interessar por alguém pelo que ela é por dentro, porque feio, gordo ou qualquer outra coisa relacionada à aparência, estamos sujeitos o tempo todo a mudar. O corpo muda, a gravidade não perdoa e tudo vira pelanca. E aí? O que restou daquela beleza da juventude? Enfim, desabafos à parte…

Circulando pela cidade também descobri um passeio bacanérrimo pelo Estreito de Magalhães, pra uma tal de Isla Magdalena. A princípio pensei que fosse turistão e tal… mas o passeio foi iradíssimo. Quem não se amarra em pinguins? Essa Isla Magdalena é totalmente ocupada por eles. A começar pelo navio que era muito maneiro… desembarcar na ilha e chegar pertinho daqueles pinguins… surreal.

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Assim que você descer na ilha, se separe do grupo que chegar junto com você pra conseguir fotos melhores. E foi assim que eu flagrei uma ave austral, provavelmente a fêmea cuidando do filhote e o macho alimentando-o. Consegui uma sequência de fotos que mostra exatamente o momento em que o macho tira de dentro do bico um peixinho e dá no bico do filhote. Eu me emocionei com essa cena. Me sinto realmente privilegiada quando presencio esses momentos da natureza.

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A natureza é sem dúvida muito perfeita. Não entendo como o homem consegue destruir isso. Quando penso que estamos nesse mundo de passagem, não consigo entender um milhão de necessidades que o ser humano cria. Somos simples seres que deveriam amar, procriar, se alimentar… enfim, o básico era pra ser suficiente, mas não. Nos tornamos seres insaciáveis que buscam coisas inatingíveis e que vivem infelizes atrás disso. Quando a gente se apega à alguma coisa, a gente acaba por destruí-la e isso serve pra qualquer âmbito da vida. Vê-se as florestas desmatadas, a caça desenfreada (quando penso nas baleias que são mortas de forma absurda e tantos outros animais que estão desaparecendo por excessos humanos…), o consumo fútil, a quantidade de lixo gerado e que não tem pra onde ir, o acúmulo de bens… Se a gente entendesse que nada daquilo nos pertence, viver, curtir o meio e participar do mundo como passantes seria o bastante. Me pergunto sempre isso. Pra que ter? Consumir o mundo é uma tentação constante, já que somos bombardeados o tempo todo por falsas necessidades. Nem vou entrar no mérito da publicidade, pois seria um discurso sem fim, mas quando pensamos que temos que ter alguma coisa pra sermos felizes, ali começou o nosso problema. Não vejo solução rápida pra essa destruição em massa, mas sei que o “ter” leva países à guerra, pensando em extremos, e me desculpe, mas não consigo ver um lado bom nisso. Que sentido faz tamanha ambição? Essas viagens me deixam assim, cheia de devaneios, questionamentos, incertezas e só consigo enxergar que tá tudo errado por aí e que essa sociedade está cada vez mais doente, mas por outro lado fico feliz por eu estar entrando no processo de tomar consciência. Talvez um dia, e tenho muita esperança disso, o homem tenha consciência do que é passar por essa vida simplesmente vivendo, sem toda essa destruição.

Essa reflexão não tem fim e espero que a cada viagem, a cada canto do mundo que eu conheça, eu aprenda mais sobre o quão menos precisamos ter pra viver bem e sermos felizes. Basta ser!

Namastê.

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