Trekking – Circuito W em Torres del Paine

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Torres del Paine, Patagônia Chilena, sempre foi o foco dessa longa viagem. Por muito tempo sonhei em fazer o Circuito W de trekking, teoricamente o mais fácil. Antes de embarcar, estudando o roteiro e me preparando fisicamente pra essa longa caminhada, comentei com um amigo sobre a minha empreitada… e ele que é atleta e adora uma aventura, na mesma hora quis ir também.

NAVIMAG - PUERTO NATALES
Puerto Natales. Fonte: www.navimag.com

Puerto Natales é uma cidade portuária bem pequenininha mesmo. Do tipo que em poucas horas você conhece tudo, porém ela é parada obrigatória pra quem vai pra Torres del Paine. Como esse seria meu ponto de partida e de chegada pós trekking, aluguei um locker no hostel em Puerto Natales pra deixar roupas e coisas que eu não usaria durante esses 5 dias, pra mochila ficar mais leve. O que acabou se tornando uma grande sacada. Decidido isso, levei apenas o necessário e indispensável.

Pegamos o primeiro ônibus do dia rumo ao Parque de Torres del Paine. Ainda no Brasil, preparei o roteiro do trekking com os percursos diários e já reservei os abrigos no parque pra passar a noite e fazer as refeições. Ao todo seriam 70km aproximadamente, completando o circuito. Um detalhe importante: é preciso escolher uma das pontas do “W” pra começar. Escolhi começar pelo Pehoe, dos trechos mais fáceis evoluindo para os mais difíceis.

Pra quem tem vontade de fazer trekking, talvez esse seja o circuito mais bonito do mundo, mas não pense que é moleza completar o trajeto não. Ele exige um certo esforço físico, de nível médio, pelo menos. Tanto que no caminho conheci várias pessoas que comprometeram seus joelhos durante a caminhada. E mesmo assim tiveram que completar o percurso, já que no meio do caminho não dá pra desistir, por motivos geográficos do circuito. Por uns 3 meses antes de entrar nessa viagem, treinei bastante, nadando, correndo, caminhando… A resistência física só vem com o tempo de prática esportiva, então não dá pra confiar só no psicológico. Pense nisso e se você cogitar fazer um trekking assim, já comece a caminhar bastante desde já! Bom, o meu roteiro foi esse aqui abaixo…

mapa trekking

  • A programação foi a seguinte:

Dia 1 – Chegada no Refúgio Pehoe, caminhada até o Mirador Grey, voltando para passar a noite no Refúgio Pehoe (média de 11km com desnível (subidas e descidas) grau médio e bastante vento)

Dia 2 – Partindo do Refúgio Pehoe, indo ao Vale Francês e voltando para o mesmo refúgio (média de 20km com desnível médio alto, pouco vento, mas terreno com bastante pedra)

Dia 3 – Partindo do Refúgio Pehoe à caminho do Refúgio Los Cuernos (média de 11km com desnível baixo, porém muita oscilação com sobes e desces, terreno de pedra e vento médio)

Dia 4 – Saindo do Refúgio Los Cuernos e seguindo para o Refúgio Chileno (média de 13km com desnível baixíssimo, vento muito forte e terreno de terra batida)

Dia 5 – Despedida do parque saindo do Refúgio Chileno rumo ao Mirador Las Torres, retorno para a base do parque finalizando o trekking e voltando pra Puerto Natales no mesmo dia. (média de 11km com desnível médio, vento fortíssimo, percurso sinuoso)

  • Onde tudo começa…

O ônibus sai de Puerto Natales e deixa todos na entrada do Parque. A partir dali você deve pegar uma van para o Paine Grande. Em seguida deve-se pegar um catamarã para o Pehoe ou seguir direto para o Las Torres (o Pehoe e o Las Torres são as extremidados do Circuito). É bem simples o processo, desde que você peça a informação certa para não confundir o lado do circuito. Lembrando que só tem uma van por dia em um único horário fazendo esse transporte dentro do parque.

Descendo no Pehoe, deixamos as mochilas no refúgio e seguimos para o Mirador Grey. De todos os percursos, esse foi o mais tranquilo no quesito esforço físico. Você vai margeando o Lago Grey tranquilamente. Porém, assim que chegamos no Mirador, me deparei com um vento gelado fortíssimo, a ponto de literalmente te carregar. Você pode inclinar seu corpo contra o vento no penhasco que você não vai cair, te asseguro. Esse vento vem do glaciar e por isso é extremamente frio e seco.

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Mirador Grey
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Logo cedo partindo do Refúgio Pehoe rumo ao Vale Francês
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Partindo do Refúgio Pehoe
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Água de desgelo do Vale Francês

No segundo dia o destino foi o Vale Francês. Na mochila de ataque só o necessário para a caminhada, lanche, água, protetor solar e máquina fotográfica. A roupa funciona em camadas e à medida que você vai andando, o corpo esquenta e você vai tirando as camadas de fora. Em alguns momentos cheguei a ficar de camiseta de tanto calor. No trecho do Vale Francês tem muita pedra, o que deixa a gente mais cansado pela instabilidade dos pés. Além disso tem uma subida relativamente íngreme até o Mirador Francês. Esse foi o trecho com o visual mais estonteante, de contrastes e vistas de tirar o fôlego. No caminho tinha várias fitinhas coloridas amarradas nas árvores pra você não perder o caminho de volta. Legal, né!?

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Visual de cima do Vale Francês
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No topo do Vale Francês

O trecho do Refúgio Pehoe até o Refúgio Los Cuernos é todo de pedra e com muitas subidas e descidas, ou seja, bastante instabilidade para as pernas. O que compensa é o visual alucinante do Lago Nordenskjol que nos acompanha o tempo todo. O vento aqui também não perdoa. Em alguns momentos chega a formar um pequeno “tornado” na água, tamanha velocidade e força.

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A caminho de Los Cuernos
TDP - Lago Noderskjold
Lago Noderskjold
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Lago Noderskjold
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Lago Nordenskjol
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Los Cuernos

Entre o Refúgio Los Cuernos e o Refúgio Chileno consideramos disparado o trecho mais difícil. Logo saindo do Los Cuernos tem uma planície ótima pra caminhar se não fossem os ventos fortes beirando 70km/h, contra você. Cheguei a voar, literalmente. Tudo voa… o óculos, o gorro… E por vários momentos tivemos que caminhar bem curvados pra frente, porque se ficássemos em pé, o vento nos derrubava. Foi uma luta por um longo período, quase irritante. Nessa hora o psicológico tem que ser forte e mentalizar muita coisa boa, rs. Passando a planície, você pensa “agora vai melhorar, não é possível”, mas não melhorou como eu imaginei.

Los Cuernos 6 cmd
A caminho do Refúgio Chileno

A paisagem te surpreende sempre. Isso é fato! O visual é deslumbrante por todo o circuito.

Depois da planície, surge um vale, muito conhecido pelos ventos fortes, eu só não imaginava que seria pior do que os 70km/h anteriores. O vale potencializa muito essa força. Subindo a montanha sinuosa, teve um momento em que me deparei com um penhasco. O espaço de passagem era de 80cm de largura, montanha à frente, penhasco e rio ladeira à direita e abaixo. Foi um momento de pânico. Era véspera de Natal e cheguei a pensar que dali eu não passaria. Até que alguém que também estava subindo esse trecho, teve uma ideia boba, mas genial. Passamos todos pelas curvas sinuosas sentados, arrastando a bunda no chão para o vento não nos derrubar. Em pé era impossível passar. Foram minutos de tensão, de realmente sentir o risco de rolar muito perto de mim. Estar com outras pessoas nessa mesma situação ajudou bastante. E deu certo!

Passado esse pedaço complicado, seguimos um pouco mais tranquilos, caminhando até o Refúgio Chileno. E a recompensa veio com uma ceia de Natal deliciosa preparada no abrigo quentinho, acompanhada de novos amigos, todos felizes e com um sentimento muito forte de superação. Foi um natal muito especial e diferente. Em função do longo período nesse dia de exposição ao vento forte e grãos de areia que voavam, mesmo com óculos o tempo todo, meus olhos incharam e ressecaram bastante. Passei a noite jantando de pijamas, com esparadrapos nos pés pra cuidar dos calos, olhos inchados, mas feliz da vida.

Refugio Chileno 2 cmd

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Depois de um café da manhã bem reforçado, partimos pra última perna do Circuito W, rumo ao Mirador Las Torres. Cansaço acumulado, corpo fatigado e mais uma subidinha com pedras pela frente. Assim que chegamos no Mirador começou a nevar. Infelizmente o tempo não estava aberto pra ver perfeitamente as Torres, mas chegar ali foi a melhor sensação do mundo.

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A volta pra Puerto Natales foi de profunda reflexão. Ter concluído o circuito significava muito pra mim. Bateu aquela satisfação de ter conseguido completar o desafio que eu tinha me proposto e senti que eu era capaz de muito mais do que imaginava. O psicológico deixa a gente mais forte diante da vida. Além dessa conquista pessoal, o mais legal desse trekking é que lá eu encontrei tantas pessoas fazendo o mesmo, mas cada um com uma história diferente. Pessoas únicas que por algum motivo foram parar ali e que estavam dispostas a melhorar alguma coisa em si.

Foi aqui que conheci uma senhora suíça no maior pique fazendo o mesmo percurso que eu, só que muito mais em forma. Uma turma de jovens de 17 anos, que antes de entrar para o exército de Israel, foram se preparar fisicamente pra se tornarem militares. Conheci um senhor que depois de aposentar, resolveu rodar o mundo. Fez uma tatuagem nas costas com o mapa mundi e colore aos poucos na pele cada país que visita. Enfim, as histórias que a gente ouve durante o jantar são as mais diversas e pra mim é tão rico ouvi-las quanto respirar. São as histórias que fazem diferença e são essas histórias que vamos construindo ao longo da nossa vida.

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Até onde somos capazes de ir, depende exclusivamente do quanto a gente realmente quer alguma coisa. Somos meros passantes nesse mundo. E torço pra que cada um consiga traçar seu próprio caminho satisfeito com suas escolhas e com a trajetória que decidir seguir. Somos frutos dos nossos pensamentos e da nossa força de vontade. Não basta querer, temos que batalhar e ir atrás. Esse trekking me deixou mais forte e mais consciente de mim mesma. Acho que foi essencial para o meu crescimento como indivíduo. A pessoa que chega não é a mesma pessoa que sai.

Desejo muito que cada um encontre sua própria maneira de deixar sua passagem pela terra mais prazerosa. Não dá pra viver insatisfeito todas as segundas-feiras do ano. Se isso rola com você, algo precisa mudar. Se proponha novos desafios. Quem sabe você não se descobre em outra profissão, em algum esporte ou em outros hobbies? O tempo passa. Como você vive a sua vida? A hora de mudar não é amanhã, é todo dia.

Te vejo pelo mundo…

Namastê

4 comentários sobre “Trekking – Circuito W em Torres del Paine

  1. Ju parabens pelo teu blog,maravilhoso. To indo para Torres ao final de marco de 2017. Gosraria de saver ss podes me dizer quais os lugares que ficastes no parque e se tem agencia que faz o circuito W pois eu irei sozinha

    1. Obrigada Helenayra. Bom… eu fiquei no Refugio Pehoe, no Los Cuernos e no Chileno, tudo reservado com antecedência. É muito tranquilo e muito seguro ir sozinha, não se preocupe com isso. Eu programei essa viagem à Torres del Paine junto com Ushuaia e El Calafate, tudo sozinha. Não fui por nenhuma agência, mas com certeza deve ter alguma agência que pode fazer tudo pra você. Eu monto roteiros personalizados, caso se interesse, posso montar toda a sua viagem, considerando deslocamentos, tempo em cada lugar e tudo mais que você precisar. Enfim, estou à disposição. Pode contar comigo. Abs. :)

  2. Olá Juliana! Simplesmente estou adorando ler seus relatos de viagem, são muito inspiradores!
    Irei fazer o meu primeiro mochilão em dezembro/janeiro. Irá durar trinta dias e começarei em Santiago, irei para Punta Arenas, pretendo fazer o “O” em Torres, passar o ano novo em Ushuaia, voltar para Santiago, ir para Mendoza, Pucon e Puerto Varas. Organizei tudo bonitinho e dará tempo de fazer tudo isso…rsrs, mas estou meio ansiosa com algumas questões. A primeira é a questão de viajar sozinha e o idioma. Falo o básico de inglês e espanhol, tanto que agora estou até treinando pela internet para ver se ajuda, mas você acha que terei muitas dificuldades por conta disso? Também em relação a Torres, li que várias pessoas fazem o trekking sozinhas, tanto o W quanto o O, você acha que é tranquilo? Meu sonho é fazer o “O”, ficando em campings gratuitos. Enfim, acho que é isso!! rs. Obrigada pela atenção e parabéns pelo site! Abraços!!

    1. Ei Talita! Poxa, que legal. Fico feliz por você estar gostando do blog e que ele esteja te inspirando. Essa é a minha intenção!
      Bom, vamos lá. Viajar sozinha tem muito mais a ver com encarar nossos próprios medos do que qualquer outra coisa. Se o idioma é uma insegurança sua, relaxe, você vai superar. Não há com o que se preocupar. As pessoas que vão pra Torres del Paine tem a mesma intenção que você, e com ctz se você precisar de ajuda, te ajudarão, principalmente se você estiver sozinha. As pessoas ficam até mais solidárias. Eu fiquei em abrigos e fiz o W, mas conheci mta gente pelo caminho que acampou, inclusive uma grande amiga minha. Tem momentos que o vento é tão forte que talvez isso incomode quem acampa. E tem a questão da comida, de levar fogareiro e coisas pra cozinhar. Seria muito bom se vc conseguisse se alimentar nos lodges. Vale mto a pena e vai te poupar o peso nas costas. Torres del Paine é tão incrível que sou louca pra voltar. Quanto ao idioma… Desencane Talita! Em qualquer desses lugares você vai se virar muito bem. Quem tem boca vai a Roma. De alguma forma vc vai conseguir tudo que vc precisar durante a viagem, mesmo que pegue um caminho errado e dps conserte, rs, como aconteceu comigo na chegada em Torres. Virou motivo de muitas risadas. Enfim, vai na fé, curta muuuuito e me conte tudo depois! :) bjs

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