Um trem para Agra, Índia

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No trem rumo à Agra | Foto João Marcelo Moreira

Ir à Índia, não fazer aula de yoga e uma massagem ayurvédica não vale, certo? Ainda em Varanasi na nossa última tarde livre, entre o check out de meio dia do hotel e o trem que pegaríamos às 22 horas rumo à Agra, decidimos ir fundo nas raízes indianas. Pedimos ao guia que nos levasse a um lugar onde os nativos costumam ir para fazer a aula e a massagem, mas com uma condição, tomar um banho no final. Parece óbvio, mas acredite, na Índia tomar banho é um luxo. A yoga foi bacana. O professor era inacreditavelmente flexível e me fez perceber o quanto eu não era. Já a massagem… essa sim foi fantástica. É tão relaxante, mas tão relaxante que você perde qualquer noção de tempo e espaço e pra melhorar, tanto eu quanto o João escolhemos um plus, incluindo a massagem shirodhara. Imagine-se deitado de costas e um óleo morninho delicioso caindo lentamente na sua cabeça por vários minutos. É isso! Maravilhosamente perfeito! E após terminar a massagem recebemos uma toalha molhada. Quase não dava pra acreditar. Esse era o banho prometido às vésperas de entrar em um trem para pernoitar e viajar pelas próximas 12 horas. Só me restou prender o cabelo duro de óleo em um coque bem alto de um jeito que ele não se mexesse nunca mais. E felizes assim nós ficamos sabendo que nosso trem estava atrasado, muito comum no inverno por causa da neblina, e sem previsão para chegar na estação. Que maravilha! Podendo ainda atrasar por até 12 horas. Dito e feito! Sem banho, sem comida e passando frio madrugada adentro na estação, o bendito trem chegou às quatro horas da manhã. Carinhosamente nosso guia só avisou “não comam nada no trem”. E assim embarcamos com uma longa viagem pela frente.

Cansados, famintos e oleosos, os beliches de ferro com lençóis manchados pareciam um palácio. O trem estava muito cheio e de tempos em tempos alguém passava no corredor oferecendo comida servida em um balde. O banheiro se resumia a uma cabine com porta, um buraco no piso por onde se viam os trilhos e uma torneira baixa com um caneco para lavar o que tivesse sujado. Simples assim. Tudo direto nos trilhos. E o João só dizia… “relaxa, um dia ainda vamos rir muito disso”.

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Nossa cabine no trem

Chegando em Agra fomos muito bem recebidos pelo Sr. David, que viria a ser nosso motorista pelos próximos 3.000km rodando as estradas do norte e Rajastão da Índia. O bendito Sr. David, simpático toda vida, quis nos agradar depois dessa noite intensa e nos levou direto para um cantinho onde só quem conhece muito bem a cidade consegue chegar. Deixamos o carro pra trás, caminhamos um pouco até chegar na margem de um rio e ao levantar os olhos, lá estava ele, o Taj Mahal todinho só pra gente. Foi bem no minuto em que eu o avistei que esqueci tudo o que tínhamos passado. Só conseguia agradecer por estar ali.

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O cantinho especial do Sr. David e o Taj Mahal

Viajar é isso. Assim como nem só de monumentos se constrói uma cidade, nem só de prazeres se faz uma viagem. Eu sou do tipo que antes mesmo de embarcar já tento me preparar para possíveis imprevistos. É claro que são imprevistos e por isso não consigo prevê-los, mas me preparo psicologicamente para que eles não se tornem maiores do que de fato são. Minha primeira reação é pensar “Beleza, deu errado, ponto. E agora? O que eu faço pra resolver?”. E nada de ficar reclamando. Acho que por isso que viajar me faz tão bem. A gente cresce, aprende que nem tudo está sob nosso controle e nos tornamos mais tolerantes. No nosso dia-a-dia, quantas coisas saem do previsto e alteram nosso roteiro? E nessas horas ser prático ajuda bastante.

Em especial na Índia, os extremos não falam, eles gritam. Ame ou odeie. Não dá nem tempo de ter frescuras. Eu recomendo que você esqueça todos os seus parâmetros de certo e errado, melhor ou pior. Abra espaço para novas referências, novos modos de viver, não tão novos no mundo, mas novos pra gente que é ocidental. Não cabe a mim julgar qualquer cultura. Ali somos meros passantes. É fato que você vai se perder nos seus próprios conceitos, nas suas próprias razões, simplesmente porque a Índia é um caos surpreendentemente insano. Escolhi não tentar entender já que tantas coisas não fazem o menor sentido pra mim, a começar pela falta de infraestrutura. É o novo, o fora do padrão e todas as suas certezas reviradas de cabeça pra baixo e sacudida mil vezes. Quer ir pra Índia? Abra a sua cabeça, mas abra também o seu coração. Quando você menos perceber, assim como eu, você terá sido seduzido pelo jeito indiano de ser, pelo carisma e pelo sorriso nos olhos. Foi preciso que lá eu pisasse, tocasse naquela terra, sentisse aqueles aromas surreais e visse com meus próprios olhos o tamanho da sabedoria daquele povo sem igual. Foi uma jornada única e garanto, a gente se transforma, pra melhor, ainda bem.

Bem vindos à Agra, a terra do Taj Mahal!

Namastê

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