Às margens do Rio Ganges, Varanasi

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Varanasi entrou pro nosso roteiro, meu e do João, porque sentimos que seria inadmissível ir à Índia e não ver de perto os rituais religiosos que acontecem às margens do Rio Ganges. Milhões de pessoas da Índia e de outras regiões sonham em pisar aqui e se banhar no rio pelo menos uma vez na vida. Por isso, aproveitamos essa oportunidade de viver um pouco dessa cultura e tentar entender o que tantas vezes parece incompreensível pra nós ocidentais. Uma cidade mística, poderosa e que carrega há milênios esses rituais sagrados, só pode ser especial.

A verdade é que Varanasi assusta e assusta muito! Num grau superior a qualquer coisa que você possa imaginar. O trânsito aqui é caótico ao extremo, não obedecendo qualquer lógica de ordenação. É tudo muito confuso, muito lotado e muito poluído, sonoro, visual e fisicamente. Logo nos primeiros passos que dei a pé no centro da cidade, o que mais chamou a minha atenção foram os sadhus, homens hindus que vivem exclusivamente para meditar e evoluir. Eu já tinha visto fotos, mas tête-à-tête é diferente. Eles vagam pelas ruas pintados, normalmente com roupas de cor vibrante, de tanga ou podem também estar completamente nus, barba comprida e dreadlock na cabeça. Esses homens são sagrados, abdicaram da vida moderna para se dedicarem ao engrandecimento espiritual e viver de doações. De pertinho eu tive a impressão que eles realmente são seres iluminados. No fundo acho que eu queria mesmo era aprender um pouquinho sobre como desapegar da vida material no mundo de hoje.

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Todas as noites é realizado no maior ghat de Varanasi a Cerimônia Aarti hindu. Os ghats são aquelas escadarias à beira do Ganges onde as pessoas tomam banho, lavam roupas, mas também é onde acontecem vários rituais. Chegamos cedo para a cerimônia e aos poucos as pessoas foram se aproximando. Muitas delas vão à Varanasi para buscar curas de doenças físicas e espirituais e para eles essa celebração é parte do processo de purificação. A cerimônia é realizada por sacerdotes da casta brâmane, considerada superior, que para celebrarem se posicionam em pequenos palcos de frente para o rio. Com incensos, velas, fogo e muito simbolismo, eles executam uma coreografia ao som de cânticos, mantras, sinos e tambores. Logo após a cerimônia, os devotos descem as escadas com pequenas taças de velas e flores e oferecem ao rio, transformando-o em um grande espetáculo de luz. Tudo isso me envolveu de uma maneira hipnotizante. Foi muito lindo presenciar a devoção desse povo. Eu fiquei extasiada e sem palavras e acho que o João também.

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No dia seguinte acordamos cedinho, às 4hs da manhã, pra assistir o sol nascer de um barco no Rio Ganges. Estava frio e a neblina baixa deixou a cidade ainda mais com ar de suspense. Entramos em um barco pequeno, para três pessoas, que quase me permitia encostar a mão na água e aos poucos fomos sendo levados para ver a cidade de fora, por novos ângulos. Fiquei surpresa com a quantidade de pessoas acordadas à essa hora e muitos deles já tomavam seus banhos no rio, mesmo com frio. Tivemos um no barco um momento muito especial. O barqueiro deu a cada um uma vela numa cestinha cheia de rosas para mentalizar um pedido com fé e soltar no rio. Inspirando bem fundo, fiz o meu pedido e pus a velinha na água. Ao longo da minha jornada de vida, quantas vezes me pego desacreditada no mundo e no ser humano… Talvez por isso eu tenha colocado meu coração ali, como uma forma de alimentar a esperança que ainda me resta de que o homem possa ter mais consciência do que realmente importa, do quão pequeno somos e deixar de lado o “eu” para transformar tudo em “nós”.

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Foto João Marcelo Moreira

Cerca de cem ghats compõem as margens do Ganges em Varanasi, cada escadaria com sua função. Uma das mais importantes é utilizada no ritual de cremação. No passeio matinal de barco pude ver o crematório claramente, cercado por enormes pilhas de madeira usadas para montar as piras. Esse ritual é uma busca pela purificação do espírito. É bem complexo e dura em média três horas. O corpo a ser cremado é carregado por quatro membros da família, e percorrem um percurso saindo de casa até o crematório ziguezagueando pelas ruas da cidade no intuito de distrair o espírito. Enquanto caminham, eles cantam um mantra para abrir e limpar os chacras. Chegando no rio, o corpo é mergulhado na água uma última vez. Logo depois o primogênito ou o parente mais próximo, responsável por acender a pira, raspa todos os pelos do seu próprio corpo. Em seguida o fogo é aceso por baixo e aos poucos vai se espalhando. Depois de cremado, se o corpo for do sexo masculino, os ossos do peitoral são dados à família, caso seja feminino, os ossos da pélvis, e todos eles são lançados no rio. Em seguida um membro da família joga quatro potes de água do rio sobre as cinzas para que encerre o processo e o espírito descanse em paz. Há algumas exceções para a cremação, como os homens sagrados, pois já são puros. As crianças abaixo de doze anos, como são inocentes, também não são cremadas. Assim como as mulheres grávidas, já que carregam bebês inocentes. Os corpos de todas essas exceções simplesmente são enfaixados, prende-os a grandes pedras e são jogados no rio. Agora imagine qual é a chance que existe de estar em um barco como o meu, raso e quase encostando na água, de presenciar um corpo emergindo ao seu lado. Isso é algo que de vez em quando de fato acontece. Acho que os deuses tiveram pena de mim e me pouparam dessa experiência.

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Ghat Crematório
Ghat Crematório
Ghat Crematório
Ghat Crematório

Descendo do barco, caminhamos um pouco pelas vielas estreitas e ainda compartilhada com vacas e cabras. É complicado entender como eles conseguem viver ali, sem a menor condição de saneamento básico e higiene. Está fora do meu alcance achar alguma razão, mas penso que talvez eles se sintam privilegiados por morarem tão perto de um rio sagrado e talvez a fé sublime todas essas carências humanas. Só posso acreditar nisso depois de ter visto tamanha precariedade e ausência de cuidados com a saúde.

Foto João Marcelo
Foto João Marcelo Moreira

Sarnath à 13km de Varanasi, foi uma esticadinha obrigatória. Foi aqui que Sidarta Gautama, o Buda, realizou seu primeiro sermão, após ter criado a doutrina. Essa cidade é pequena e muito pacata. Quase tudo foi destruído pelos turcos, no entanto restou, entre tantas ruínas, uma grande estupa de 93 metros de diâmetro, que inclusive estava sendo restaurada. Foi aqui nessa estupa impressionante que buda deu o seu primeiro sermão.

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Foto João Marcelo Moreira

Foi também aqui em Sarnath que sobre a árvore de Bodhi, realizei dois sonhos. Vi pela primeira vez na vida aquelas bandeirinhas coloridas budista que acho lindas e girei as rodas das orações. Essas bandeiras são mantras impressos em tecidos coloridos, que se feito com intenções puras, se tornar uma fonte de energia positiva. Já as rodas das orações possuem internamente mantras escritos em rolos de papel. Ao girá-las lançamos as orações ao vento, recebendo boas vibrações e ecoando o mantra nas dez direções do universo. É ou não é um lugar todo especial? Essa visitinha à Sarnath me deixou mais em paz do que nunca.

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Esses dias em Varanasi foram intensos, fortes e pesados. Acho que precisava ficar mais um tempo aqui para assimilar melhor todos esses rituais. Mesmo tendo me esforçado para me preparar psicologicamente para essa cidade, nada chegou perto do que eu imaginei. É chocante e é de deixar qualquer ocidental boquiaberto. E mesmo com todo esse choque cultural, não me sinto digna de julgar esse povo tão devoto e de uma fé inabalável. Quanto mais eu viajo e presencio esses rituais religiosos, mais aumenta o meu respeito e a minha tolerância ao que me parece estranho e diferente. Muita coisa que vi talvez eu não vá entender nunca. É como eu disse no começo, é incompreensível, mas cresceu em mim uma admiração enorme pelo povo e pela riqueza cultural. E você sabe… uma vez que abrimos a mente, nunca mais ela se fecha.

Próximo destino, Agra, a cidade do Taj Mahal. E a aventura começa no caminho… Dessa vez vamos pernoitar no trem!! Meu Deus! Que loucura!!

Te vejo pelos trilhos…

Namastê

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